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Brasil, 204 anos depois: independentes de Portugal, reféns de nós mesmos

Imagem gerada por IA para o Canal Rural

Neste 7 de Setembro, 204 anos após o grito de 1822, cabe uma pergunta: de que o Brasil é realmente independente?

Rompemos com Portugal e construímos nosso Estado. Mas a soberania não é só bandeira, hino, moeda e fronteiras. É decidir o próprio futuro, e aí nossa independência permanece incompleta.

O Brasil é rico em território, água, energia, biodiversidade, alimentos e minerais, mas não transformou tudo isso em prosperidade. O agronegócio tropical provou, com pesquisa e empreendedorismo, que era possível produzir onde muitos diziam que não.

Ainda assim, exportamos riqueza bruta e importamos tecnologia e conhecimento. Produzimos muito e agregamos pouco. Isso não é desenvolvimento.

Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que a produtividade brasileira pouco avança desde o fim da década de 1970. O resultado está no baixo crescimento, na renda limitada e na dificuldade de competir.

Até o agro tem sua dependência

Somos uma potência agrícola, mas entre 85% e 90% dos fertilizantes vêm do exterior, segundo o Ministério da Agricultura. Crises externas atingem o custo da comida e a rentabilidade do produtor.

Da porteira para dentro, o produtor está entre os mais eficientes do mundo. Do lado de fora, enfrenta logística deficiente, insegurança jurídica e crédito caro. Parte da competitividade conquistada no campo se perde antes de chegar ao mercado.

O limite do agronegócio não está na sua capacidade de produzir, mas nas estruturas que o cercam.

Educação: a dependência que começa cedo

Não há independência tecnológica sem conhecimento. No PISA 2022, apenas 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram o nível básico em matemática.

Sem aprendizagem, faltam profissionais para uma indústria moderna e uma economia digital. O país que não forma capital humano importa tecnologia, perde empregos qualificados e amplia sua dependência.

Enquanto esses problemas se acumulam, o sistema político brasileiro gasta tempo demais administrando crises que ele próprio produz.

O conflito recente no Supremo Tribunal Federal (STF) em torno do caso Banco Master retrata essa inversão. Dúvidas sobre competência e imparcialidade chegaram ao público antes de uma solução clara. Quando quem deveria oferecer segurança jurídica produz incerteza, todos pagam a conta.

Não se combate um possível abuso com outro. O caminho é o devido processo legal, a transparência e o respeito aos limites de cada Poder.

O Estado se perde em disputas, regras, exceções e licenças. A burocracia encarece o investimento e recompensa quem domina os corredores do poder, não quem produz melhor.

Há décadas acompanho o Brasil, como cidadão e analista. Vi o país vencer a inflação, estabilizar a moeda, ampliar a produção e trocar governos. Houve avanços, mas voltamos aos mesmos entraves: baixa produtividade, educação insuficiente, burocracia, insegurança jurídica e falta de planejamento. Não são acidentes. São causas intocadas.

Curar a doença, não apenas os sintomas

O Brasil precisa parar de confundir medida emergencial com projeto nacional. Governos anunciam soluções para a crise da semana e evitam problemas que atravessam décadas.

A nova independência exige educação, infraestrutura, ciência, tecnologia, produtividade, menor dependência de insumos estratégicos, equilíbrio fiscal, segurança jurídica e instituições que respeitem seus limites.

Isso não é uma agenda de direita ou de esquerda. É uma agenda de país adulto.

Em 1822, a independência exigia romper com uma potência estrangeira. Em 2026, exige romper com a acomodação, o improviso, o patrimonialismo e o mau gasto público.

O primeiro grito foi “Independência ou Morte”. O nosso pode ser menos épico, mas não menos urgente: educação ou dependência; produtividade ou estagnação; instituições ou arbítrio.

O Brasil já se libertou de Portugal. Falta libertar-se das estruturas que o impedem de avançar. Independência não é apenas um feriado. É uma tarefa.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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