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Produtor abandona carreira na farmácia, volta às raízes e constrói avicultura com mais de 200 mil frangos

A ligação com o campo sempre fez parte da vida de Diego Campos Vilela. Filho de produtores rurais, ele cresceu acompanhando a rotina da propriedade da família em Cássia, no interior de Minas Gerais. Chegou a deixar a cidade para estudar, formou-se em Farmácia e trabalhou no setor, mas acabou retornando às origens para construir uma nova trajetória profissional. Hoje, comanda um negócio na avicultura que passa por uma expansão capaz de mais que dobrar a capacidade de alojamento de aves.
A história começou a ganhar novos contornos em 2012, quando Diego decidiu investir na criação de frangos. O início da atividade coincidiu com outras mudanças importantes em sua vida, incluindo o casamento e a construção da própria casa. Mais de uma década depois, o produtor acompanha a ampliação das instalações, a adoção de novas tecnologias e os resultados de um trabalho desenvolvido com a família e os profissionais que atuam nas granjas.
Das lembranças da infância à decisão de voltar ao campo
Diego passou praticamente toda a infância e adolescência na zona rural. Até os 16 anos, vivia na propriedade dos pais e se deslocava até a cidade para estudar. Depois, seguiu para Uberaba, onde cursou Farmácia, e passou por Pouso Alegre durante um estágio em uma indústria.
Mesmo distante da propriedade, a possibilidade de retornar ao campo permaneceu presente. “Eu não vou falar que nasci na roça, mas a minha vida inteira foi na roça. Desde pequenininho até os 16 anos, vivi no campo. Só saí para estudar e voltei. Minha raiz sempre foi no campo”, conta.
Após concluir a graduação, Diego retornou à região devido a um problema de saúde da mãe. Trabalhou por aproximadamente dois anos em uma drogaria antes de decidir se dedicar novamente às atividades rurais da família.
A mudança de profissão, no entanto, não ocorreu de uma única vez. Ao longo dos anos, ele ainda teve outras experiências no setor farmacêutico, incluindo sociedades comerciais, até perceber que precisava escolher entre as duas atividades.
“Eu vi que não dava para conciliar as duas coisas. Meu pai já estava um pouco mais de idade, e eu tinha que dar sequência ao trabalho”, explica.
Na época, a propriedade familiar já reunia diferentes atividades agropecuárias. O pai de Diego havia trabalhado com café, gado, produção de leite e cultivos como milho, soja e arroz.
Essa diversificação foi uma característica marcante da trajetória da família e ajudou a construir a base para novos investimentos.
Diego lembra que o pai chegou a comprar suas primeiras terras com o dinheiro obtido na produção de arroz, cultura que atualmente praticamente desapareceu daquela região.
O legado dos pais e a continuidade do negócio familiar
Para Diego, a influência dos pais vai além do conhecimento adquirido nas atividades rurais.
Ele conta que o pai começou a trabalhar ainda criança, ajudando na produção de leite da família e transportando o produto a cavalo até uma cidade próxima, antes de seguir para a escola.
Ao recordar essa trajetória, destaca os valores que considera fundamentais para a administração dos negócios.
“Meu pai é uma pessoa muito honesta, de coração muito bom. Passou para a gente valores de família, respeito e a importância de não enganar outras pessoas. Às vezes, ele prefere perder alguma coisa a achar que está prejudicando alguém”, afirma.
O produtor também reconhece a participação da mãe na construção do patrimônio familiar. Em julho de 2026, os pais completaram 50 anos de casamento.
“Tudo que foi construído foi meu pai junto com a minha mãe. Sempre tivemos esses valores de respeito e honestidade”, diz.
A continuidade das atividades também envolve o irmão de Diego, que é médico e mora fora da região. Apesar da distância, os dois mantêm investimentos e negócios em conjunto, incluindo a produção de café e parte das granjas.
Investimento na avicultura começou em meio a casamento e construção da casa
A decisão de ingressar na avicultura representou uma mudança importante na trajetória profissional de Diego.
Em 2012, ele iniciou a construção da primeira granja, ao mesmo tempo em que organizava o casamento com Andreia, sua companheira desde a juventude, e construía a casa onde viveriam.
O período foi marcado pela necessidade de conciliar investimentos, compromissos financeiros e decisões pessoais.
“Foi uma turbulência, porque eu tinha saído da farmácia e fui para a roça sem saber se ia dar certo ou não. Já fazia oito anos que estava namorando e tinha que tomar uma atitude de casar”, relembra.
Segundo ele, a granja ficou pronta no segundo semestre daquele ano, e o primeiro alojamento ocorreu por volta de outubro. A casa foi concluída nos meses seguintes, pouco antes do casamento.
“Eu estava montando a granja, construindo a casa e marcando o casamento. Foi tudo praticamente na mesma época”, conta.
Apesar das dificuldades iniciais, Diego manteve o investimento na atividade. Com o passar dos anos, ampliou a estrutura e passou a apostar na modernização dos aviários.
Capacidade de produção deve passar de 90 mil para mais de 200 mil aves
Atualmente, a propriedade está em uma nova fase de expansão.
De acordo com o profissional responsável pelo acompanhamento técnico da granja, a capacidade de alojamento é de aproximadamente 90 mil aves e deverá chegar a 200 mil a 210 mil aves com a conclusão dos novos aviários.
O crescimento também é acompanhado pela substituição de equipamentos e pela adoção de tecnologias voltadas ao controle das condições ambientais.
Uma das principais mudanças foi a troca do sistema de aquecimento dos pintinhos.
Antes, o aquecimento era realizado por fornalhas a lenha. Atualmente, a estrutura conta com campânulas a gás.
O profissional que acompanha a granja há cerca de dez meses destaca a transformação.
“Quando eu entrei, eles aqueciam os pintinhos com as fornalhas a lenha. Agora houve a transição para as campânulas a gás e também a expansão dos novos aviários”, relata.
Na avaliação dele, o empreendedorismo é uma das características da família Vilela. “O principal diferencial da família Vilela é o empreendedorismo. Eles atuam em diversas áreas e estão sempre buscando trazer novas tecnologias para alcançar melhores resultados, proporcionar uma melhor ambiência e levar frangos de melhor qualidade para o abatedouro”, afirma.
Tecnologia ajuda, mas não substitui a experiência de quem trabalha no aviário
Embora os investimentos em equipamentos sejam importantes para a modernização das granjas, os profissionais envolvidos na produção ressaltam que a tecnologia, sozinha, não garante bons resultados.
O acompanhamento diário das aves continua sendo fundamental para identificar alterações no comportamento dos animais e corrigir possíveis problemas.
“A tecnologia por si só não garante um bom resultado. Para isso, precisamos de profissionais que saibam trabalhar com ela. O Diego e os granjeiros precisam conhecer os equipamentos para que eles realmente tragam resultados”, explica o responsável técnico.
Um dos trabalhadores da propriedade, que acompanha a produção há vários anos, também destaca a importância da experiência adquirida na rotina dos aviários.
Segundo ele, a observação do comportamento das aves permite perceber se os animais estão confortáveis ou se é necessário realizar ajustes no ambiente.
“A gente aprende muita coisa. Você chega ao aviário e consegue perceber se o pintinho está passando frio ou se a ambiência está boa. Isso é muito importante durante o lote. Aí você consegue corrigir alguma coisa no painel”, conta.
O responsável técnico reforça que os dados fornecidos pelos equipamentos devem ser analisados em conjunto com a observação dos animais.
“Nada substitui o olhar humano. A tecnologia pode identificar a temperatura, mas a gente precisa observar o conforto térmico. Nem sempre o que aparece no painel corresponde exatamente à condição que o frango está sentindo naquele dia”, explica.
A combinação entre equipamentos, conhecimento técnico e acompanhamento diário é apontada como um dos fatores que contribuíram para os resultados da propriedade.
Granja alcança destaque em conversão alimentar
O trabalho desenvolvido na propriedade também trouxe resultados reconhecidos no acompanhamento técnico da produção.
Em fevereiro, uma das granjas alcançou o segundo melhor resultado do mês em conversão alimentar, com índice de 1,286, segundo o profissional responsável pelo acompanhamento.
A conversão alimentar é um dos principais indicadores de eficiência na avicultura e representa a quantidade de ração consumida para cada quilo de peso produzido pelas aves. Quanto menor o índice, desde que mantidas condições adequadas de desenvolvimento e sanidade, maior tende a ser a eficiência alimentar.
O resultado foi atribuído ao trabalho conjunto entre o produtor e os profissionais responsáveis pelo manejo.
“Obtivemos juntos o segundo melhor resultado do mês de fevereiro em conversão alimentar, com 1,286. É um reconhecimento enorme do esforço tanto do Diego quanto dos granjeiros”, afirma o técnico.
O comprometimento com a produção também foi reconhecido em uma premiação do programa SuperAgro, mencionada durante a reportagem.
Para Diego, o reconhecimento tem um significado especial por envolver diretamente os trabalhadores da propriedade.
“Eu confio muito nos meninos, no serviço deles. Quando chega uma premiação, fico mais feliz por eles”, conta.
A participação dos trabalhadores no desenvolvimento das granjas é um dos pontos destacados por Diego ao longo da entrevista.
O produtor menciona Alex e Ednei, irmãos que trabalham nas unidades da propriedade, como pessoas fundamentais para a continuidade das atividades.
Segundo ele, o relacionamento construído ao longo dos anos ultrapassa o vínculo profissional. “Não vou falar que são meus funcionários. São meus amigos. Sempre me ajudam no que der e vier aqui na granja. Posso contar com eles”, afirma.
Um dos trabalhadores confirma a proximidade com o produtor e relata que a relação foi construída durante anos de convivência. “O Diego é como se fosse um irmão para mim. É um parceirão, não é patrão, é um amigo”, conta.
Para Diego, a confiança na equipe é essencial diante dos desafios enfrentados na criação de frangos, uma atividade que depende de fatores como qualidade dos pintinhos, condições climáticas, alimentação e manejo.
O produtor ressalta que nem todas essas variáveis estão sob o controle de quem administra a granja, mas considera fundamental manter uma equipe comprometida.
A esposa e os filhos também participam da história
A trajetória de Diego no campo também se mistura à história de sua família. Ele conheceu Andreia durante o ensino médio. Os dois estudaram juntos e construíram uma amizade que, anos depois, se transformou em relacionamento.
Na juventude, Diego chegou a tocar guitarra e violão em uma banda. Uma das lembranças do casal envolve o Carnaval, quando ele pediu ajuda à então colega de escola para fazer tranças no cabelo comprido que usava na época.
O contato foi retomado durante os anos de faculdade, dando início ao relacionamento. Diferentemente do marido, Andreia não cresceu no meio rural. A ligação com o campo começou depois que os dois passaram a namorar.
Hoje, o casal tem três filhos, dois meninos e uma menina, que também convivem com a rotina da propriedade.
Andreia conta que procura transmitir às crianças a importância das atividades rurais, mesmo que a rotina familiar ainda limite sua participação direta no trabalho. “A gente sempre passa para os meninos a importância do campo. Não só para eles, mas para todos”, afirma.
Segundo ela, os filhos demonstram interesse pelos animais e pelo ambiente rural. “Somos muito privilegiados por ter esse contato com a natureza e com os animais. Para as crianças, isso é muito importante. O Vittor é muito ligado ao campo. A Laurinha também gosta muito. Os três gostam, mas o Vittor é o mais interessado”, relata.
A possibilidade de que algum dos filhos dê continuidade às atividades familiares é vista com expectativa, mas ainda sem uma definição.
Produzir alimentos é o que mantém a família no campo
Depois de mais de uma década na avicultura, Diego afirma que passou a enxergar a atividade rural como um negócio que exige planejamento, gestão e capacidade de adaptação.
“Hoje, a granja e qualquer produção rural precisam ser tratadas como uma empresa. A gente gera emprego, gera alimento e alcança o mundo”, afirma.
Para ele, os resultados financeiros e produtivos são importantes, mas não representam o único motivo para continuar investindo.
O produtor destaca o significado de participar da cadeia de produção de alimentos e de saber que o trabalho desenvolvido nas granjas chega à mesa dos consumidores.
“A gente persiste porque sabe que lá na frente vai ver uma pessoa feliz com um alimento que você produziu. Às vezes, o produtor rural não é tão valorizado, mas é a vida do campo”, diz.
O sentimento também é compartilhado pelos trabalhadores da propriedade. “A avicultura, para mim, é saber que nós alimentamos o Brasil. Só de saber que você está produzindo um alimento, isso já é tudo. Nós amamos criar frango”, afirma um dos granjeiros.
Ao avaliar a decisão de deixar a carreira de farmacêutico para assumir os negócios rurais, Diego não demonstra arrependimento.
Depois de passar por diferentes experiências profissionais, ele acredita ter encontrado no campo a atividade à qual deseja continuar se dedicando. “Valeu a pena, sim. Eu gosto do que faço”, resume.
Com novos aviários em construção e a expectativa de ampliar a capacidade de alojamento para mais de 200 mil aves, a família Vilela dá continuidade a uma trajetória que atravessa gerações, mantendo a produção rural como centro dos negócios e das relações familiares.