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Xadrez comercial: o agro brasileiro frente às tarifas americanas e o peso das concessões

Imagem produzida por inteligência artificial

O agronegócio brasileiro encontra-se, mais uma vez, no centro de uma complexa engrenagem geopolítica e comercial. Com a proximidade da implementação de tarifas, prevista para o final de julho, o setor produtivo nacional corre contra o relógio para mitigar o impacto de uma taxação americana de 25%.

A raiz da atual tensão está presente no relatório preliminar da investigação da Seção 301, publicado na semana passada pelo Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR). O documento, que serve de fundamentação para a imposição das barreiras tarifárias, foi recebido pelo setor produtivo nacional como superficial, enviesado e eivado de acusações falsas.

A fragilidade técnica americana salta aos olhos, especialmente no tocante às alegações sobre desmatamento. A peça carece de referências metodológicas sólidas ou notas de rodapé explicativas, e falha ao não apresentar uma análise concreta sobre quais produtos supostamente ligados ao desmatamento estariam, de fato, ingressando no mercado norte-americano.

Ao construir essa narrativa frágil, Washington ignora deliberadamente a queda do desmatamento que o Brasil vem registrando, bem como os acordos comerciais balizados pelas normas da Organização Mundial do Comércio (OMC) firmados com parceiros como México e Índia.

Diante desse cenário, se as vias de negociação fracassarem, o país tem legitimidade para acionar a lei
de reciprocidade, suspendendo vantagens históricas concedidas aos americanos. O histórico contencioso do Brasil na OMC confere o peso político necessário a essa postura.

O pragmatismo dita que uma negação retórica e genérica sobre o desmatamento não surtirá efeito prático. A linha de defesa mais eficaz, encampada pelas lideranças do setor, é a atuação por cadeias produtivas. A meta central é pleitear exclusões tarifárias focadas em produtos industriais e itens agrícolas específicos que não possuem produção correspondente em solo americano.

O caso do pescado, por exemplo, surge como um argumento robusto: demonstrar que o produto exportado pelo Brasil simplesmente não compete com produtores locais elimina a justificativa protecionista de Washington.

Essa disputa item a item revela um cenário de forte pressão política de ambos os lados. Enquanto se antecipa que os exportadores de carne dos Estados Unidos peçam exclusão de barreiras, o governo americano deve apresentar fortes queixas contra o sistema de cotas de açúcar do Brasil. Há uma intensa movimentação de bastidores onde cada setor busca inserção ou salvaguarda conforme suas vulnerabilidades.

Para reduzir o peso da tarifa de 25% para patamares de 20% ou 15%, o Brasil possui cartas complexas na mesa de negociações. O etanol desponta como a primeira grande concessão comercial provável. Contudo, a moeda de troca mais sensível e instável reside no universo tecnológico: a posição brasileira em relação ao trato com o comércio digital.

Com o prazo final da investigação americana fixado para o término de julho, e com os EUA demonstrando claro desinteresse em prorrogar o processo, o impacto econômico já começa a ser sentido antes mesmo da canetada final.

Produtores e exportadores brasileiros vivem o dilema do cronograma: antecipação de embarques, e internalização de mercadorias nos EUA antes que as novas tarifas entrem em vigor.

Apesar do cenário severo, as linhas de exceção tarifária delineadas assemelham-se às praticadas no ano anterior, fortemente atreladas às demandas de abastecimento da própria indústria e dos consumidores norte-americanos, que dependem de certas matérias-primas brasileiras.

A manifestação setorial se faz indispensável, tanto para inclusão na lista de exceções, quanto para evitar que alguns dos itens sejam retirados, por pressão interna. O caminho não será simples nem rápido, mas a sobrevivência e a rentabilidade de importantes cadeias do nosso agro dependerão da precisão técnica e da firmeza com que o setor privado brasileiro conduzirá suas cartas em Washington nas próximas semanas. Vamos nos posicionar!

*Ana Paula Abritta é diretora de Estratégia e Inovação da BMJ Consultores Associados, onde atua desde 2016 liderando equipes de Relações Governamentais, Inovação e Comércio Internacional. É mestra em Poder Legislativo (Câmara dos Deputados), com MBA em Comércio Internacional (FGV) e graduação em Relações Internacionais (UCB). É cofundadora da rede Women Inside Trade (WIT).


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